quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reprovação a Lula traduz deficiências de seu governo

O Globo

Saúde e segurança são as duas maiores angústias responsáveis pela insatisfação da população

A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra que a reprovação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva supera 60% nos três maiores colégios eleitorais do país, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nos oito estados pesquisados, violência e saúde são as maiores preocupações. A violência é o maior problema para moradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. A saúde é o que mais aflige cidadãos de Minas, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás. Trata-se de mais um recado para Lula. Em ambos os temas, o governo federal não tem conseguido dar respostas minimamente satisfatórias à angústia dos brasileiros.

Na segurança, os sinais de que a situação saiu de controle estão por toda parte. Porções significativas do território são dominadas por organizações criminosas que achacam moradores, cobram taxas por serviços essenciais, impõem leis marciais e têm a audácia de impedir a entrada do Estado em seus domínios, como mostram as barricadas na entrada de comunidades do Rio. Facções do Sudeste, como a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a fluminense Comando Vermelho (CV), atuam em diferentes regiões do país e até no exterior, disseminando a violência. O problema não é novo, mas precisa ser enfrentado.

Mito decaído - Merval Pereira

O Globo

Nos últimos meses, o governo Lula está em decadência notável, e muito rapidamente

O mito analógico está fragilizado diante dos problemas que a era digital trouxe para o palco político? As pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias, especialmente a Quaest/Genial de ontem, mostram uma percepção de que os dois primeiros anos do terceiro governo de Lula repetem programas e histrionismos que estão com data vencida. O público, que voltou ao teatro para ver uma peça nova de seu ídolo, não se contenta mais com o que é mostrado em cena, quer coisas e caras novas no proscênio.

Os oito estados escolhidos pela equipe de Felipe Nunes para a pesquisa resumem os centros que devem decidir a eleição de 2026, e a situação do governo é francamente decadente. Nos três maiores colégios eleitorais — Rio, São Paulo e Minas —, a desaprovação está na casa dos 60%, e em estados do Nordeste, que Lula dominava eleitoralmente, a ponto de se eleger em 2022 por causa da região, a aprovação já está abaixo da reprovação.

Não será de repente - Malu Gaspar

O Globo

Numa cena famosa do livro “O Sol também se levanta”, de Ernest Hemingway, um personagem pergunta a outro como foi que ele faliu. O sujeito responde: “De duas maneiras. Primeiro, gradualmente, e então de repente”. Para o governo Lula, os resultados da última pesquisa Quaest mostrando que a reprovação ao governo já superou a aprovação nos oito principais estados brasileiros é uma espécie de “gradualmente”.

Mês após mês, vários institutos de pesquisa vêm indicando que o mau humor com o governo só aumenta, apesar de o PIB ter crescido 3%, de o desemprego estar em queda e a massa salarial em alta. Esse estado de coisas se repete até em regiões onde Lula é forte eleitoralmente, e o governo está bastante presente com seus programas sociais, como o Nordeste.

Segurança como ponto central - Míriam Leitão

O Globo

Eduardo Paes afirma que não vai armar a guarda municipal, mas abrirá concurso com requisitos específicos para novos agentes

Na pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, o Rio de Janeiro é o estado em que a segurança é vista como o problema mais grave, apontado por 71% dos entrevistados. É o único estado com um percentual tão alto. O prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, está criando uma força municipal armada para combater os crimes de rua, que têm crescido muito. Paes afirma que tentará atrair quadros formados nas Forças Armadas, como o CPOR, que serão treinados especificamente para atuar nesse tipo de ação urbana.

“Ela não vai enfrentar o problema da milícia, da ocupação territorial, do crime organizado, nem substituir a Polícia Militar ou a Civil. O que a gente quer é criar um modelo de policiamento ostensivo, comunitário, preventivo, que parta da premissa do respeito aos direitos do cidadão, mas que combata a bandidagem que toma conta das ruas das cidades brasileiras”.

Motor da reforma ministerial é a luta interna - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Padilha pode se mostrar de reproduzir sucesso do Mais Médicos com o Mais Especialidades, mas sua saída do Palácio reproduz o que se vê no PT, a disputa pelo comando de 2026

Vencerá a eleição de 2026 quem for capaz de convencer o eleitor que é capaz de lhe oferecer futuro. A definição, dada por um colaborador de mais de uma década do presidente da República, impõe um desafio a mais para a reforma ministerial iniciada nesta terça por Luiz Inácio Lula da Silva: convencer o eleitor de que pretende lhe oferecer futuro devolvendo a Saúde para um ministro que já a ocupou ou, missão impossível, com o deputado José Guimarães (PT-CE) na Secretaria de Relações Institucionais.

Se Alexandre Padilha é o nome ideal para a Saúde por que não a ocupou desde janeiro de 2023? Porque Lula queria dar uma resposta ao negacionismo e conter o reinado do Centrão na Pasta com o currículo irrepreensível da então presidente da Fiocruz. Pela deselegância com a qual Nísia Trindade foi tirada do governo, o presidente sugere que a melhor maneira de encobrir um erro é cometendo outro.

Lula vive seus piores momentos no poder - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com a volta de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, a trajetória da direita no mundo é ascendente; aqui o governo de esquerda está em baixa

Quando o ex-ministro José Dirceu foi defenestrado da Casa Civil pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no auge da crise do Mensalão, em 16 de junho de 2005, parecia que o governo petista nem terminaria o mandato, tal a pressão que sofria no Congresso, na opinião pública e na mídia. No dia seguinte, José Dirceu voltou à Câmara, para a qual havia sido eleito deputado mais votado do país, num contexto em que sua cassação já parecia irreversível.

O petista estava resignado com a situação, disposto a lutar por seu mandato, mas sem muitas esperanças: “Eu sei que vão cassar meu mandato, mas vou lutar por ele”. Indagado sobre a situação do PT, delicadíssima, por causa do depoimento de Duda Mendonça, que admitiu ter recebido recursos para campanha no exterior, fez um comentário que a vida viria a comprovar algumas vezes: “O PT vai sobreviver, por causa do Lula e da sua militância”. Foi o que aconteceu, Lula foi reeleito e elegeu Dilma Rousseff, que foi reeleita depois da crise de 2013, mas não entendeu o recado das ruas e sofreu o impeachment. O petista voltou ao poder nas eleições de 2022, depois de condenado pela Lava-Jato, passar mais de 500 dias preso e ter a condenação anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Resultado mostra que efeitos da crise do Pix continuam - César Felício

Valor Econômico

Governo está em uma espiral de aprovação popular fortemente descendente, sobretudo no Nordeste

Não é sempre que um conjunto de pesquisas com 10.442 entrevistas é divulgado, o que dimensiona o significado dos levantamentos de avaliação do governo Lula feitos pela Genial/Quaest em oito Estados e tornados públicos hoje. Das situações específicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Pernambuco e Bahia se distingue um mosaico com desenho bastante claro: a situação é terrível para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Poderia ser ainda pior se a oposição tivesse um rumo já traçado para 2026.

A marca do governo é Lula - William Waack

O Estado de S. Paulo

Ele é a figura central e o principal símbolo na comunicação do governo

Os últimos resultados de pesquisas reiteram que o problema do governo não é de comunicação, mas de quem o chefia. Lula cobra de seus ministros e especialmente de seu marqueteiro uma marca ignorando que ela já existe: é ele mesmo.

A marca enfrenta uma tempestade perfeita. O presidente é maior que seu partido e o conjunto de forças de esquerda. Ocorre que, nesse lado do espectro político, conforme bem demonstrado nas eleições municipais, tudo encolheu, enquanto as forças adversárias sociais e políticas se expandiram.

Lula e a especulação fiscal - José Serra

O Estado de S. Paulo

Uma breve análise das palavras do presidente Lula é necessária, no mínimo para ajudar os cursos de Economia em sua árdua tarefa de ensinar uma ciência tão inexata

Os últimos dois meses presenciaram um quadro econômico nacional em deterioração e que tem afetado sobremaneira a situação política, incluindo a avaliação do presidente Lula. Vale notar, no entanto, que há dois movimentos em paralelo. Numa via, o descrédito fiscal já vinha minando as perspectivas de mercado há meses. Noutra, um descompasso nos preços tem tornado a inflação uma ameaça e impactado o orçamento familiar em aspectos bastante críticos.

Infelizmente, a teoria econômica é eivada de lacunas na compreensão de diversos dos elementos centrais de nossa vida econômica, como a renda, a produção e os preços, notadamente o preço do nosso dinheiro. Mesmo em relação às causalidades que ganham ares de verdade inelutável, as controvérsias teóricas e práticas são imensas.

Empobrecimento e efeito político - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Dureza maior não é a pobreza; é o empobrecimento. Quando a percepção de empobrecimento atinge em cheio as classes médias, como agora, o custo político é inevitável. É o que ajuda a explicar o disparo na reprovação do governo Lula, como mostram as pesquisas.

A cavalgada dos preços da alimentação, de 1,68% em apenas um mês e meio é o primeiro choque sobre o orçamento doméstico. Tão ou mais decepcionantes são as respostas das autoridades para o aumento da carestia: que o consumidor troque carne por ovo, cujos preços logo em seguida disparam; café, por chá; troque laranja por limão; cenoura por abobrinha ou pepino; alface, por chicória... Ou então, vêm as tentativas inúteis de importar o que ficou caro demais; e, mais decepcionante, a chamada de varejistas e de atacadistas para maneirar nos efeitos da lei da oferta e da procura, como se tivessem perdido o controle das maquininhas de etiquetar preços.

O seguro morreu de velho - Assis Moreira

Valor Econômico

O mundo está mais perigoso. E a questão de segurança econômica ganha ainda mais relevância com Donald Trump de volta à Casa Branca

Os ocidentais se referiam sobretudo à China quando falavam até recentemente do tema. Agora, os EUA são também uma ameaça. Parceiros se inquietam com a abrupta mudança em alianças americanas, intimidações no comércio com choques tarifários, ameaças de “tomar” o Canal do Panamá e tornar o Canadá o 51º Estado americano, reivindicar o controle da Groenlândia e abocanhar metade dos minerais críticos da combalida Ucrânia em nome de interesses estratégicos.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tirou uma rápida conclusão: “Sabemos que haverá um aumento no uso de ameaças e de ferramentas de coerção econômica, como sanções, controles de exportação e tarifas. Vimos isso novamente nos últimos dias e a rapidez com que as coisas podem se agravar”.

Nesse cenário, um bom número de países acelera a cartografia dos riscos, para adotar suas políticas de segurança econômica, uma área cada vez mais dinâmica. Em vários deles, incluindo os europeus, o grau de integração econômica com a China é levado em conta com cuidado. Existe inquietação com o excesso de capacidade industrial chinesa, mas também o reconhecimento de que custaria caro reforçar a resiliência das economias se desviando da segunda maior economia do mundo. Isso poderia reduzir a eficiência e aumentar os preços no mercado interno, como notam certos analistas.

PIB, 2025: está frio ou está quente? - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Apesar de quedas na confiança, criação de vagas formais veio bem acima do previsto

Comércio, indústria e serviços encolheram no final do ano passado, segundo dados do IBGE. A confiança de consumidor e de empresas de todos os setores cai desde o bimestre final de 2024, segundo dados da FGV; janeiro foi de ânimos bens ruins.

No entanto, há indícios de que a coisa não é bem assim, embora já houvesse discussões na praça financeira até sobre o efeito da suposta desaceleração na atitude do Banco Central. Os primeiros dados mais frios parecem ter tido algum efeito na cotação do dólar e em taxas de juros no atacadão do mercado de dinheiro (que caem desde fins de janeiro). O dólar baixou de R$ 5,70. Agora, com paniquitos a respeito do suposto programa de governo contra o esfriamento da economia (mais crédito) e dúvidas sobre a perda de ritmo do PIB, voltou para perto de R$ 5,80.

A democracia na mira sob Trump - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Medidas são revolução sem precedentes nas democracias contemporâneas

A democracia representativa modera o conflito político. De um lado, a disputa eleitoral majoritária reduz as chances das posições extremadas, sempre minoritárias no eleitorado. A competição pelo voto favorece partidos e candidatos mais próximos do centro. De outro lado, o Estado de Direito e as diferentes formas de freios e contrapesos institucionais impedem o exercício arbitrário do poder pelo governante da vez.

Esse era o consenso entre especialistas e a pedra de toque das teorias que buscaram explicar o funcionamento dos regimes democráticos representativos. Até a recente eleição de Donald Trump.

Vitorioso com uma plataforma radical, o 47º presidente dos EUA vem tentando abolir direitos de há muito reconhecidos, além de tomar medidas que ultrapassam sua competência legal. Mais do que isso, investe pesado na destruição de órgãos estatais e instrumentos costumeiros de governo.

Adam Przeworski, cientista político da New York University, vem publicando no site Substack o Adam’s Diary. Trata-se de comentário ao que faz a nova administração. Ele observa que as medidas anunciadas ou adotadas para reduzir a máquina pública —e controlá-la por inteiro— representam transformação revolucionária nas relações entre Estado e sociedade, porque sem precedentes sob regime democrático. Pois, para processar os conflitos de forma pacífica, argumenta, o governo eleito tem de ser moderado e não pode impor derrotas que pareçam irreversíveis aos que venceu pelo voto.

Poesia | O trenzinho, de Ferreira Gullar

 

Música | Barracão - Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Época de Ouro

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pronunciamento na TV não pode ser propaganda

O Globo

Lula não violou lei eleitoral ao repetir em rede nacional anúncios já feitos antes, mesmo assim está errado

O pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de segunda-feira — o primeiro do ano — não trouxe nenhuma novidade, a não ser o tom informal adotado sob a orientação do marqueteiro Sidônio Palmeira, secretário de Comunicação que assumiu em janeiro. Em pouco mais de dois minutos, Lula anunciou, em meio a expressões coloquiais e metáforas, dois programas que já haviam sido anunciados: o Pé-de-Meia, que cria uma poupança para incentivar a permanência de jovens na escola, e o Farmácia Popular, que fornece medicamentos gratuitamente.

“Venho aqui para falar de dois assuntos muito importantes. Uma dupla que não é sertaneja, mas que está mexendo com o Brasil: O Pé-de-Meia e o novo Farmácia Popular”, disse Lula. “É para os jovens brasileiros que trago a primeira boa notícia. O pagamento da poupança de R$ 1 mil do programa Pé-de-Meia entra amanhã na conta e rendendo.” A iniciativa já havia sido anunciada, até porque o programa está em evidência desde que foi questionado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por não ter sido incluído no Orçamento (valores chegaram a ser bloqueados). Sobre o Farmácia Popular, Lula afirmou que os beneficiários poderão ter acesso gratuito a todos os 41 itens (antes eram 39), que agora incluem fraldas geriátricas. A “novidade” também já havia sido anunciada.

Lula precisa de seu próprio 'Desenrola' - Vera Magalhães

O Globo

Maneira tortuosa de conduzir o governo, que inclui demora em decisões e fritura desnecessária de auxiliares, só complica crise do governo

Num momento em que atira para vários lados em busca de uma bala de prata que lhe devolva a popularidade ainda em queda, o presidente Lula carece, neste terceiro mandato, de seu próprio Desenrola, pois vem se esmerando em dificultar ainda mais as coisas para si.

A demissão de Nísia Trindade da Saúde, que cravei no site do GLOBO ainda no início da tarde de sábado, só foi confirmada nesta terça-feira, mesmo assim de forma oblíqua, que expôs uma cientista respeitada no meio acadêmico a um desgaste desnecessário e imerecido. Sim, porque uma coisa é reconhecer que Nísia padecia de problemas de gestão, que venho apontando nesta coluna há pelo menos um ano e que nada tinham a ver com a cobiça do Centrão por sua cadeira, aqui repudiada. Outra, completamente diferente, é submeter uma auxiliar a humilhação pública.

Mudar ministros requer etiqueta – Elio Gaspari

O Globo

Lula troca alguns de seus ministros numa humilhante fritura pública que desqualifica o próprio governo. Em setembro de 2023, sem uma só palavra de agradecimento, ele demitiu a atleta Ana Moser do Ministério dos Esportes, colocando em seu lugar o deputado André Fufuca (PP-MA). Tratava-se de trocar competência na equipe por votos do Centrão na Câmara.

Numa operação semelhante, em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso viu-se obrigado a dispensar a ministra Dorothea Werneck, da Indústria e Comércio. Visitou-a, comoveu-se e registrou em seu Diário:

— Fui ficando com raiva de mim mesmo.

O cavalheirismo foi uma das marcas da presidência de FH.

A fritura de Nísia - Bernardo Mello Franco

O Globo

No sétimo mês de governo, Lula declarou que não demitiria Nísia Trindade do Ministério da Saúde. “Tem ministros que não são trocáveis. Tem pessoas e funções que são uma coisa da escolha pessoal do presidente da República”, disse. “A Nísia não é ministra do Brasil, ela é minha ministra”, acrescentou.

A titular da Saúde estava na mira do Centrão, que tentava derrubá-la para pegar a chave do cofre do SUS. Sem filiação partidária, ela conseguiu resistir aos torpedos disparados do Congresso. Ontem sucumbiu ao fogo amigo do Planalto.

Nísia passou dois anos e dois meses no cargo. Enfrentou diversas crises, mas só se tornou “trocável” quando pesquisas apontaram um tombo na popularidade do governo. Transformada em bode expiatório, ela viu sua cadeira virar alvo de cobiça no PT. Agora será substituída pelo deputado Alexandre Padilha, que deixa o abacaxi da articulação política para assumir um dos maiores orçamentos da Esplanada.

Nosso país é real ou surreal? – Roberto DaMatta

O Globo

É concreto ou abstrato ver um Brasil que não consegue entender o que é ser progressista, conservador e reacionário?

Um avião que pousa de ponta-cabeça; um calor desmesurado nos nossos trópicos, que, além de tristes, como disse Lévi-Strauss, tornaram-se infernais diante de uma fervura de fim de mundo. Tempestades onde não chovia, seca no pântano, o extraordinário da neve e rios imensos secando. Começamos a duvidar do nosso seguro e permanente real...

É real essa inversão da rotina durante o batido surrealismo de um carnaval que perdeu sua força ritualística, porque hoje podemos transitar e transar com toda gente, de todo modo, em todo lugar e todo dia porque o proibido tornou-se permitido e — melhor e mais fascistoide — obrigatório?

A volta de Zé - Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Grupo articula duas festas para marcar retorno de Dirceu, o que deve aumentar a polarização em 2026

José Dirceu, o ex-ministro e estrategista que levou à aliança entre o PT e o PL em 2002, será candidato a deputado federal em 2026. É o que articulam fundadores do Partido dos Trabalhadores, advogados ligados à sigla e integrantes do grupo que se autodenomina “geração de 68”.

Eles preparam duas grandes festas “para o Zé”, uma em Brasília e outra em São Paulo. A primeira no dia 11 de março e a outra no dia 15 para comemorar o aniversário de Dirceu, que completará 79 anos – ele nasceu em 16 de março de 1946. Cassado em 2005 na esteira do escândalo do mensalão, preso em 2013, após ser condenado pelo Supremo a 7 anos e 11 meses de prisão – ele cumpriu 354 dias na cadeia – e detido outras três vezes durante a Operação Lava Jato, que o condenara a 23 anos de prisão, o ex-ministro viu as ações contra ele serem anuladas pelo STF na esteira do movimento que levou à revisão de outras condenações, como as de Lula.

Despesas ‘zumbis’ pressionam arcabouço - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Mobilização do Congresso para dar vida a emendas canceladas ocorre às vésperas da audiência de conciliação no STF em torno das emendas cujo pagamento foi bloqueado pelo ministro Flávio Dino

Avança rápido o projeto de lei complementar que “ressuscita” R$ 15,7 bilhões em despesas que não foram executadas nos anos em que estavam autorizadas no Orçamento, e por isso são chamadas de “restos a pagar”. A Câmara decidiu ontem apreciar a proposta, aprovada na semana passada no Senado, em regime de urgência.

O embaraço que isso pode trazer ao Orçamento de 2025 é moderado, avaliam técnicos da área orçamentária.

A mensagem política, porém, é muito ruim do ponto de vista das contas públicas e do ambiente macroeconômico. “Se o Congresso aprovar essa irresponsabilidade, podemos assistir a uma forte subida do dólar”, disse à coluna o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. Não há margem, dentro dos limites do arcabouço fiscal, para acomodar mais esse conjunto de despesas, explicou.

Exemplo prático de dano da ‘fake news’ do Pix - Fernando Exman

Valor Econômico

Norma revogada da Receita seria um instrumento importante para combater o crime organizado

Hydra era um monstro gigante parecido com uma cobra d’água que, dependendo da versão, tinha sete ou mais cabeças. Representava o mal e ameaçava tudo destruir, diz a mitologia grega. Qualquer um que tentasse decapitá-la iria descobrir que, assim que uma cabeça qualquer era cortada, outras emergiam do ferimento. Só uma das cabeças era a “verdadeira”, aquela que, ceifada, levaria à sua morte. Milhares de anos depois de sua concepção, a história inspirou o nome da operação contra duas “fintechs” que operavam para o crime organizado.

Deflagrada na terça-feira (25) em conjunto pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e a Polícia Federal (PF), a Operação Hydra prendeu um policial civil, apontado como CEO de uma das “fintechs”, e cumpriu dez mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santo André e São Bernardo. A Justiça também determinou o bloqueio de valores existentes em oito contas bancárias, além da suspensão temporária das atividades das instituições de pagamento que foram alvo.

Razões para a desaprovação do governo - Nilson Teixeira

Valor Econômico

Mesmo que a reversão da queda da aprovação do governo Lula não seja trivial, é presunção assumir que a chance de reeleição do presidente seja reduzida

A aprovação do governo Lula na pesquisa da Datafolha alcançou 24% em fevereiro de 2025, o nível mais baixo dos seus três mandatos. Após se manter relativamente estável em 2023 e 2024, a aprovação recuou 11 pontos percentuais (pp) frente à pesquisa de dezembro, com diminuição de 14 pp entre os que têm mais de 60 anos, 15 pp entre aqueles com menor escolaridade, 15 pp nos eleitores com renda inferior a dois salários-mínimos e 20 pp nos que votaram em Lula no segundo turno.

Apesar de não ser possível apontar com precisão as causas da abrupta queda da aprovação do governo no início de 2025, vários fatores ampliaram a insatisfação da sociedade nos últimos dois anos:

Aposta em vitória da oposição é prematura - Christopher Garman

Valor Econômico

É preciso cautela para avaliar que os índices de aprovação de Lula estão derretendo ou que ele está fora do páreo

Nos 25 anos em que atuo na área de consultoria de risco político, nunca observei um debate eleitoral tão antecipado quanto o atual. A reação do mercado à pesquisa publicada pelo Datafolha em 14 de fevereiro, que mostrou uma queda de 11 pontos na aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deixou isso claro. No mesmo dia, o dólar fechou abaixo de R$ 5,70 pela primeira vez desde novembro.

É muito difícil dizer o quanto as expectativas sobre o resultado das urnas em 2026 estão influenciando o câmbio. Mas há um consenso cada vez maior (certo ou não) de que só uma vitória da oposição levará a um ajuste fiscal e de que estamos caminhando para um cenário de mudança em 2026. Também influenciam essa avaliação a expectativa de desaceleração da economia este ano por conta do aumento da taxa de juros, e as várias vitórias eleitorais de candidatos de direita pelo mundo.

Lula está como Alice no país das maravilhas – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Para um observador, o chefe do Executivo está vivendo uma realidade paralela, perdeu a conexão com a vida de seus eleitores tradicionais e, também, não consegue estabelecer sintonia com as camadas mais jovens da população

É inesgotável o repertório de frases do livro de aventuras infantis Alice no País das Maravilhas, escrito por Lewis Carroll e publicado pela primeira vez em 1865. O autor cultivou amizade com três filhas do deão da faculdade onde lecionava, sendo que uma delas, Alice Liddel, durante um piquenique, em 4 de julho de 1862, pediu que o escritor contasse uma história. Carroll inventou uma série de peripécias de uma menina de 7 anos chamada Alice. Como era gago e tinha dificuldades para construir a narrativa oral, Alice pediu-lhe que escrevesse mais histórias.

Amigo cidadão - Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

O aviso de Kakay vai além de amizade responsável, alerta que a esquerda não percebeu as transformações que exigem mudanças nos propósitos e na forma de fazer política

Um ditado antigo diz "amigo do rei que o avisa, além de amigo, é bom cidadão". Ao avisar que o isolamento do PT e do presidente Lula pode levar os eleitores a caírem na tentação por regime autoritário de direita, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, foi amigo e cidadão. Sua manifestação vai além de amizade responsável, alerta que a esquerda não percebeu as transformações tecnológicas, sociais, culturais, econômicas e ecológicas que ocorreram nas últimas décadas, exigindo mudanças nos propósitos e na forma de fazer política. O mundo entrou no século 21, mas ideias da esquerda continuam em séculos passados. Isso não é problema para a direita conservadora, mas é a negação da esquerda progressista.

Mais pesquisa ruim para Lula - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Nova pesquisa mostra rejeição ainda maior a ideias, planos e a quarto mandato

Luiz Inácio Lula da Silva tem feito campanha para que se explore petróleo na bacia da Foz do Amazonas, no mar que fica diante do Amapá e da Ilha de Marajó, no Pará. Quase metade dos brasileiros (49,7%) é contra, 16,5% são indiferentes, 20,8% pensam como o presidente.

E daí? Nem nesse assunto, em tese lateral em termos políticos, o discurso de Lula está colando. Não quer dizer que iniciativas de governo devam se curvar, ponto a ponto, a desejos imediatos ou ideias circunstanciais da população.

Apenas se observa que nem aí Lula faz pontos na pesquisa MDA para a Confederação Nacional do Transporte (CNT). O presidente tem procurado falar ainda mais nas escolas, nas ruas, campos, construções, em rede nacional ou em rádios locais. Vai colar?

A culpa que Nísia não tem - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A desaprovação do governo é fruto do conjunto de uma obra mal concebida pelo presidente

A troca de ministros é prerrogativa do presidente da República, assim como a escolha de auxiliares é da responsabilidade dele. Portanto, quem errou não foi Nísia Trindade, mas quem a nomeou para comandar a pasta da Saúde sem incluir a cláusula de vitrinista no contrato.

Profissional experiente e respeitada na área, foi chamada justamente pelo prestígio acumulado. Se esperava que ela tivesse também predicados marqueteiros, Luiz Inácio da Silva (PT) equivocou-se de pessoa.

Trump está matando a galinha dos ovos de ouro - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Medidas adotadas pelo presidente estão criando um ambiente hostil à ciência, que é uma das razões do sucesso dos EUA

Pelo menos desde o século 7 a.C. fabulistas alertam para o perigo de, com vistas a obter vantagens de curto prazo, destruir para sempre a rentabilidade de um recurso valioso. O mais célebre desses contos morais é a história da gansa dos ovos de ouro, de Esopo.

Em português a gansa virou galinha, mas sem alteração da mensagem central: não importa quais sejam as suas expectativas e objetivos, não mate a ave que lhe fornece regularmente um ovo de ouro por dia; se o fizer, você se arrependerá. Donald Trump, com sua egolatria e mentalidade de mercador de bazar, está eviscerando várias gansas, galinhas e até codornas que garantiam aos EUA enorme poder e riqueza. Um golpe particularmente duro é o que ele está dando contra a ciência americana.

A direita radical cresce mesmo onde parecia improvável - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Até na Alemanha, onde qualquer discurso extremista de direita dispara mil alarmes

A eleição de domingo para o Parlamento Alemão deve, enfim, encerrar qualquer dúvida sobre o fato de que, nas grandes democracias da América e da Europa, o voto na extrema direita está consolidado. Ou não?

Não há dúvida de que a AfD —que dobrou de tamanho entre uma eleição e outra e foi a legenda preferida de um em cada cinco alemães— é um partido extremista de direita, tanto no discurso eleitoral quanto na proposta política. Dificilmente se pode ser mais radical à direita do que ele, dentro dos limites das regras da democracia liberal. Além disso, não se pode subestimar o fato de que esse crescimento ocorreu na Alemanha, um país onde, devido à memória de sua tragédia política no século 20, qualquer discurso extremista de direita dispara mil alarmes.

Poesia | Marília Gabriela - "Com Licença Poética", de Adélia Prado

 

Música | Recife Manhã de Sol - Bloco da Saudade

 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Déficit crescente impõe nova reforma da Previdência

O Globo

Levantamento mostra que pagamento de aposentadorias e pensões aumentou 60% entre 2015 e 2024

São eloquentes os sinais de que as contas da Previdência se tornam a cada dia mais insustentáveis. Um levantamento feito pelo Tesouro Nacional a pedido do jornal Valor Econômico mostra que o déficit com pagamento de aposentadorias e pensões da iniciativa privada, servidores federais e militares cresceu 60% nos últimos nove anos. Em 2024, foram pagos R$ 417 bilhões (3,45% do PIB ). Em 2015, eram R$ 261 bilhões, ou 2,64% do PIB (os dados foram corrigidos pela inflação).

Ventos conservadores - Merval Pereira

O Globo

O grave é que a extrema direita obteve votação histórica na Alemanha. A tendência para o centro é crucial para frear esse avanço

A vitória da centro-direita na Alemanha é um ponto importante na onda conservadora que vai dominando os principais países do mundo. A centro-direita está tomando conta da política europeia. Há uma convergência de pensamento e objetivos com Donald Trump nos Estados Unidos que isola a esquerda, mesmo a não radical. A direita ganhou a Europa quase inteira. É um dos resultados mais acachapantes desde a fundação da União Europeia: Grécia — Nova Democracia (centro-direita); Bulgária — GERB (direita); Hungria — Fidesz (direita); Finlândia — KOK (direita); França — RN (direita); Áustria — FPO (direita); Alemanha — CDU (centro-direita). Anteriormente, já ganhara na Polônia, na Hungria e na Itália.

Como entender a virada à direita – Míriam Leitão

O Globo

A economia é só um dos motivos do avanço da extrema direita na Alemanha. Já no Brasil, ela está nas cordas, mas de olho nos erros do governo

A relação entre economia e política sempre existirá, ainda que os determinantes do voto sejam cada vez mais múltiplos e complexos. O que leva a Alemanha a dar 20% dos votos a um partido de extrema direita? Isso nunca terá uma resposta simples. Desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, o país enfrenta duas pressões de preços: o gás que vinha da Rússia e que teve que ser substituído por outras fontes mais caras, e os grãos que vinham da Ucrânia. Como consequência, energia e pão encareceram na Alemanha.

Ministra da Saúde é a pobre menina rica da Esplanada – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Nesta segunda-feira, em rede nacional de tevê, o presidente Lula destacou o programa Farmácia Popular, enquanto a saída de Nísia Trindade já era anunciada nos telejornais como certa

Em 1963, Carlos Lyra e Vinicius de Moraes produziram o musical Pobre Menina Rica, para o qual compuseram uma dúzia canções, uma das quais intitulou a obra. "Eu acho que quem me vê, crê/ Que eu sou feliz, feliz só porque/ Tenho tudo quanto existe/ Pra não ser infeliz/ Pobre menina tão rica/ Que triste você fica se vê/ Um passarinho em liberdade/ Indo e vindo à vontade, na tarde/ Você tem mais do que eu/ Passarinho, do que a menina", diz a letra da música.

Convidada para ser a voz feminina da peça musical, foi nela que Nara Leão estreou sua carreira profissional em 1963. É uma história de amor de uma moça de classe alta carioca com um mendigo poeta. Muitos acreditam que a musa da bossa nova inspirou a criação da peça, porque nem Lyra nem Vinicius pensaram duas vezes em convidá-la para o musical. Em 1965, Carlos Lyra gravaria a trilha sonora de Pobre Menina Rica, em disco lançado pela CBS, que contou com a participação de Dulce Nunes, Moacir Santos, Catulo de Paula e Telma Soares, um clássico da bossa nova.

Gastança e rombo fiscal: calma, gente, calma! - Pedro Cafardo

Valor Econômico

Brasil deveria ter um plano de médio e longo prazo para estabilizar a dívida

Ao ler coluna publicada neste espaço 15 dias atrás, um leitor enfurecido a considerou “um louvor à política desenvolvimentista irresponsável do lulopetismo”. Razão aparente do furor: a afirmação de que a austeridade fiscal é importante, mas não pode ser remédio para todos os males.

Foi a única manifestação desse tipo entre outras civilizadas e favoráveis.

Há espaço para uma discussão mais séria dessa questão. O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista à TV Brasil, observou que ocorre no mundo inteiro, não apenas no Brasil, o domínio dos mercados financeiros e de suas visões sobre como deve ser a política econômica. E o refrão dessas forças dominantes é “risco fiscal”, em outras palavras, o risco de se gastar mais do que se arrecada.

Lula vai à TV divulgar programas 'vitrines' do governo

Jéssica Sant’Ana e Fabio Murakawa  / Valor Econômico

Presidente anuncia ampliação do Farmácia Popular e pagamento do Pé-de-Meia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento na noite de segunda-feira (24), em rede nacional de televisão, para divulgar a ampliação da lista de produtos gratuitos oferecidos pelo Farmácia Popular e para anunciar o início do pagamento de R$ 1 mil aos alunos participantes do programa Pé-de-Meia aprovados em alguma etapa (1, 2 ou 3 ano) do ensino médio.

“Eu venho aqui para falar de dois assuntos muito importantes, uma dupla que não é sertaneja, mas que está mexendo com o Brasil: o Pé-de-Meia e o novo Farmácia Popular”, iniciou Lula.

Haddad: “Se o Brasil não crescer, não existe ajuste fiscal possível”

Alex Jorge Braga / Valor Econômico

Ministro da Fazenda deu as declarações durante evento em São Paulo

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), afirmou que não é possível fazer ajuste fiscal sem crescimento econômico. Ao criticar os dois presidentes anteriores, Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), ele disse que o país não cresceu e ainda teve déficit fiscal, mesmo com a regra do teto de gastos que congelava as despesas públicas.

Haddad disse ainda que o atual arcabouço fiscal, aprovado no atual governo, prevê uma cota mínima de investimentos. O piso de investimentos, segundo Haddad, parte da ideia de que “se o Brasil não crescer, não existe ajuste fiscal possível.” O ministro ainda afirmou que se o país perseverar no cumprimento do arcabouço fiscal, conseguirá chegar a um patamar de melhores resultados primários que vão acontecer junto com o crescimento econômico, o que, consequentemente, irá abrir espaço para investimentos.