Para os leigos, o economês – língua fechada dos economistas, às vezes, ininteligível e árida – torna a compreensão do funcionamento da economia ainda mais complexa e difícil. O engessamento da cabeça dos economistas com modelos teóricos rígidos e o distanciamento do cotidiano das pessoas comuns dificultam a comunicação com os pobres mortais não especialistas. O diálogo é obstruído por ruídos excessivos e evitáveis. A abstração excessiva, a falta de paciência e didática, a inabilidade emocional e a complexidade do assunto tornam quase impossível à população digerir e processar as informações oferecidas pelos especialistas.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 8 de fevereiro de 2025
A economia e os economistas - Marcus Pestana
País órfão - Cristovam Buarque
Veja
As prioridades mais urgentes dependem da
educação de base
A educação é órfã da República, tanto quanto foi do Império. Independentemente do partido e da ideologia dos dirigentes em cada momento, o ensino de qualidade para todos nunca foi tratado como vetor de nosso progresso. Não tivemos presidente educacionista que implantasse um sistema com qualidade e equidade para cada criança brasileira desde seu nascimento. Nestes quarenta anos de democracia, tivemos nove eleições presidenciais, mas o número de adultos analfabetos plenos continua praticamente o mesmo, acima de 10 milhões. O número de escolas, de vagas e o dinheiro aplicado cresceram, mas não melhoramos nossa posição como um dos países com pior qualidade na educação e provavelmente aquele com maior desigualdade conforme a renda da família.
Vila Alegria – Um Conto de Terror - Cláudio Carraly*
Ao adentrar os limites da vila, fui recebido por um silêncio que não costumamos conhecer, como se as próprias ruas desertas guardassem segredos proibidos. Os moradores, pareciam pálidas de suas próprias existências, trocavam entre si saudações vazias, seus olhares desprovidos de qualquer brilho. — Bem-vindo à Vila Alegria, murmurou um velho pescador, suas palavras pairando no ar eram desconexas de seu olhar perdido e vazio. Instalei-me na modesta pousada na rua principal da cidade, onde o proprietário, um homem taciturno de semblante cansado, murmurou advertências sombrias sobre cuidados na estadia, deixando-me inquieto com suas meias-palavras e sugestões de prudência. Vários moradores rondavam o lugar com curiosidade. À medida que a noite caía, uma sensação de inquietação se apossava de mim.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Desabamento em igreja expõe descaso com patrimônio
O Globo
Não falta dinheiro, mas uma rotina de cuidado
com as relíquias históricas e com a segurança dos turistas
O desabamento do teto da Igreja da Ordem
Primeira de São Francisco, no Centro Histórico de Salvador, mostra o descaso
com que o Brasil trata os turistas e o patrimônio histórico.
A tragédia matou uma jovem de 26 anos, feriu cinco visitantes e destruiu uma
relíquia do barroco brasileiro. Era notória a precariedade do templo, conhecido
como Igreja de Ouro e considerado uma das sete maravilhas de origem portuguesa
no mundo.
Dois dias antes da tragédia, o frei Pedro Júnior Freitas da Silva, guardião-diretor da igreja, alertara o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a dilatação no teto e pedira vistoria. A inspeção estava prevista para esta quinta-feira, mas o desabamento não esperou os trâmites burocráticos. A fissura no teto era só uma das muitas carências da igreja. Em 2023, reportagem do portal g1 revelou o estado do edifício. Havia pilastras sem reboco, piso desnivelado, fiação exposta e, em alguns lugares do complexo religioso, o teto estava escorado em ripas de madeira. Um dos pátios fora parcialmente interditado devido ao risco de queda de um pináculo, depois removido.
A resilência da frágil democracia brasileira - César Felício
Valor Econômico
A incapacidade de qualquer grupo político ser
hegemônico no Brasil protege e preserva a democracia no País. Esta é a
explicação que a cientista política chilena Marta Lagos, diretora da Corporação
Latinobarometro, encontra para explicar a resiliência da democracia brasileira,
que completa 40 anos em março.
Momentos de perigo não faltaram: morte de um presidente que não chegou a tomar posse, dois processos de impeachment, uma hiperinflação, um ex-presidente condenado por corrupção, e, para arrematar, um complô para um golpe de Estado tramado dentro da sede do governo. O apreço à democracia entre os brasileiros oscila, mas está entre os mais baixos do Continente. A violência perpassa todo o tecido social. Está nas ruas, está no Estado, está dentro das casas. O Brasil, contudo, está longe de ser o país latino-americano com a maior ameaça ao sistema.
José de Souza Martins - Caipira não é o que se diz
Valor Econômico
A exposição da Pinacoteca de São Paulo,
infelizmente, não ressalta o que de fato ela documenta: a supressão do mundo do
caipira e sua sobrevivência imaginária
A exposição destes dias sobre o caipira, na
Pinacoteca do Estado de São Paulo (“Caipiras: Das Derrubadas à Saudade”), sem o
pretender propõe desafios a quem a visita. A abordagem impressionista trata do
que é o caipira aos olhos de hoje, e não aos olhos da História.
Já no século XVI, os jesuítas criaram
comunidades de nativos nos aldeamentos ao redor da Vila de São Paulo de
Piratininga e estimularam o surgimento de uma cultura diversa da cultura do
conquistador e da metrópole. Na verdade, uma cultura brasileira. Os próprios
portugueses se mesclaram com mulheres indígenas, dando origem a uma nação de
mamelucos, isto é de pardos e mestiços.
A língua indígena dominante, a língua geral, o tupi, transformou-se em língua de todos, indígenas, mestiços e brancos. No século XIX, o general Couto de Magalhães a definirá como nheengatu, língua bonita.
Sai Taxad, entra o Haddad Paz e Amor - Bruno Carazza
Valor Econômico
Ministro da Fazenda emite sinais claros de que daqui pra frente será portador de boas notícias
Para aqueles que se atentam à linguagem
corporal, o semblante cansado e a fisionomia carregada diante das perguntas dos
jornalistas denunciavam que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não estava
nada confortável com o anúncio casado entre as medidas de contenção fiscal e a
intenção do governo de isentar do imposto de renda as pessoas que ganham até R$
5 mil por mês.
Denunciando a tensão das longas negociações com a ala política do governo nos dias anteriores, a aparência do chefe da equipe econômica talvez antecipasse também os tempos difíceis que estavam por vir. Afinal, com quase dois anos no posto de “pior emprego do mundo” (Traumann, 2018), Haddad já tinha condições de imaginar que o mercado não iria receber bem a mensagem contraditória de um ajuste nos gastos aguardado há meses vir acompanhado de um surpreendente agrado para milhões de contribuintes.
Reforma sem rumo não conserta nada - Vera Magalhães
O Globo
Lula não sinaliza a aliados o que pretende
com mudança em ministérios, nem qual será sua extensão
Ninguém sabe mais, ou ainda, qual será o
escopo, o tamanho, o rumo e o objetivo da propalada reforma ministerial. De
pouco adianta Lula dizer que é mania da imprensa ou dos políticos falar em
reforma a cada início de ano. Foi ele que deflagrou a especulação sem saber ao
certo o que pretende ao seu término — uma forma bastante errática de proceder,
ainda mais com popularidade em baixa.
Pior que a incerteza quanto aos rumos da mexida no governo é a apatia do entorno do presidente — do Palácio aos ministérios mais distantes na Esplanada, do PT aos partidos do Centrão —, que, pela primeira vez neste mandato, demonstra preocupação com o risco de derrota em 2026 e admite que existe fadiga de material.
Arroz e melão mais baratos – Flávia Oliveira
O Globo
Preço da comida é drama concreto na vida
brasileira, e global, nos últimos anos
Convém a Luiz Inácio Lula da
Silva lembrar que foi levado, pela terceira vez, ao Palácio do Planalto pelos
votos, predominantemente, de mulheres, negros, nordestinos, população de baixa
renda — frequentemente, com características combinadas, porque eleitores,
eleitoras não são unidimensionais. É bem-vinda — e algo tardia — a preocupação
do mandatário com a inflação dos alimentos. Trata-se de mazela que preocupa,
perturba, ameaça as famílias brasileiras, sobretudo as que o escolheram nas
urnas. Desde a virada do ano, o presidente reuniu — e espremeu — um punhado de
ministros (Casa Civil, Fazenda, Agricultura, Desenvolvimento Agrário), todos
homens, em busca de solução. Tal qual laranja fora de época, extraiu, em vez de
suco, bagaço.
O presidente da República, em discursos de improviso, gosta de lembrar as lições de economia doméstica que aprendeu com a mãe, dona Lindu. Pois, se nela pensasse na hora de falar da carestia da comida, acertaria mais do que repetindo os jargões de macroeconomia que absorveu das conversas com o titular da Fazenda, o presidente do Banco Central, os empresários do agro, os financistas da Faria Lima, os criadores de bonés.
Haddad acha que podem acontecer surpresas positivas na inflação - Míriam Leitão
O Globo
O ministro da Fazenda, Fernando
Haddad, acredita que podem ocorrer surpresas positivas na inflação, por
causa da safra e da queda do dólar, contudo
concorda com a avaliação do Banco
Central de que a taxa pode ficar acima do teto da meta em junho, mas
que a resposta virá rapidamente por conta do choque de juros.
- A política monetária tem um delay para fazer efeito. Ela não faz efeito na hora. No caso do Brasil, na minha opinião, vai ser mais rápido, muito mais rápido do que se pensa, porque o choque de juros foi muito forte, então a resposta vai vir mais rápido. Penso que nós podemos ter uma acomodação mais rápida também em função disso. Ainda que em junho eles tenham escrito uma carta para nós, eu acredito que o horizonte relevante do Banco Central já vai estar convergindo para a meta.
Esquerda erra ao bater na globalização - Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Maior integração econômica ajudou a tirar da
miséria milhões de pessoas em países emergentes
A esquerda brasileira sempre bateu na
globalização. Fazia-o, creio, porque esse movimento era parte do chamado consenso
de Washington, o que vale dizer que era uma manifestação do imperialismo
ianque.
Na prática, porém, a globalização é um dos ingredientes da notável redução da desigualdade mundial. Entre 1990 e 2020, o coeficiente de Gini do planeta passou de 70 para 60,6. Quanto mais esse número se aproxima de 100, mais concentrada é a renda. A queda foi puxada pela diminuição da desigualdade entre países. O Gini que compara nações foi de 60 para 47,1 no mesmo período.
Balneário Camboriú na Faixa de Gaza? - Marcos Augusto Gonçalves
Folha de S. Paulo
Por bravatas que possam ser, declarações do
presidente são transparentes no rumo das intenções
Donald Trump não
dá sossego. Expressão de um capitalismo desenfreado, o falastrão da Casa Branca
investe contra a ordem liberal e o Estado republicano ao entregar a gestão
pública a bilionários alucinados, como Elon Musk,
promover o terrorismo
tarifário para assombrar adversários e expor ideias estapafúrdias para
solucionar problemas complexos, como o conflito entre Israel e Palestina.
A dúvida que paira no ar é até que ponto os descalabros em série que Trump vem anunciando devem ser encaixados na categoria de bravatas intencionais com vistas a obter vantagem em negociações, se são distrações ou se é melhor levá-los a sério. É o dilema que desnorteia analistas e agentes políticos.
Crédito vai a nível recorde no Brasil - Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Em caravana de propaganda na metade do
mandato, presidente se esforça para refazer imagem
O presidente da República disse
nesta quinta-feira que virão novidades dos bancos públicos. Em um país
escaldado pelo estrago que se fez com o crédito estatal sob Dilma 1 e mesmo no
final de Lula 2,
o observador prudente levanta as sobrancelhas e abre os olhos.
Por enquanto, a atuação dos bancos públicos tem sido moderada, ao menos no atacado. O total de crédito em relação ao tamanho da economia jamais foi tão grande. O saldo do estoque de crédito (total de dinheiro ora emprestado) como proporção do PIB chegou a 54,4% em dezembro passado.
O povo não é bobo - Dora Kramer
Folha de S. Paulo
Lula erra na comunicação ao transferir ao
consumidor a culpa pela inflação
Não há boné que
dê jeito na comunicação do governo se o presidente da República é o primeiro a
contrariar o preceito básico do bom diálogo: fazer do interlocutor um aliado.
Pois Lula (PT) foi na contramão
da regra ao transferir
ao consumidor a responsabilidade de controlar os preços dos alimentos mediante
a troca de produtos e/ou recusa de comprar os mais caros. Como se não andassem
todos pela hora da morte.
Caso a ideia tenha sido atrair a sociedade para um combate conjunto à inflação, a execução saiu torta. De duas, uma: falhou o conselheiro e novo mago da Esplanada, Sidônio Palmeira, ou falhou o presidente em sua confiança nos improvisos.
Arapuca, que arapuca? - Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Lula precisa entender: não é hora de distribuir bonés, é de vestir a carapuça
Se é essa a estratégia do presidente Lula
para recuperar popularidade, a coisa não vai bem: viajar pelo País para lançar
programas, inaugurar obras e dar entrevistas para rádios locais é o arroz com
feijão do marketing – aliás, só em momentos de calmaria –, mas falar uma
bobagem atrás da outra anula eventuais ganhos e produz manchetes, análises
negativas e festa na oposição e na internet. Lula deveria estar careca de saber
disso.
Na primeira entrevista coletiva em meses, uma semana atrás, estava descontraído e bem-humorado, mas durou pouco. Ao falar ontem a rádios da Bahia, fechou a cara, endureceu o tom e foi buscar o “culpado” pelos erros da economia. Sim, ele, Roberto Campos Neto, que nem é mais presidente do Banco Central, mas é acusado por Lula de ter deixado “uma arapuca difícil de sair”.
A economia e o estrago eleitoral - Celso Ming
O Estado de S. Paulo
A conversa geral em Brasília agora é sobre a
necessidade de equilibrar as contas públicas. Mas a atitude do governo, até
agora, não passa firmeza.
O presidente Lula mudou em alguma coisa seu discurso. Repete que defende a responsabilidade fiscal, que não deixará que as despesas estourem sobre as receitas e insiste em que obteve déficit zero em 2024, sem levar em conta que a dívida pública saltou dos 71,7% do PIB em 2022 para 76,1% do PIB em 2024. E ainda garante que não vai adotar nenhuma providência para conseguir algum superávit fiscal. Ao contrário, desautoriza seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que reconhece a existência de um rombo e não conta com bala de prata para abatê-lo.
Soberania - Laura Karpuska
O Estado de S. Paulo
O que Trump propõe é um mundo onde as instituições são descartáveis
Nesta semana, colegas economistas calcularam o
impacto das tarifas impostas pelo governo Trump a alguns parceiros comerciais
dos Estados Unidos. Os números são, claro, alarmantes. Trump voltou atrás, e
muitos comemoraram. Mas a conta ignora o mais importante. O discurso de Trump vai
além de um mundo menos livre e interconectado. Não se trata apenas de um
retrocesso ao liberalismo econômico. É uma ameaça à soberania das nações.
Trump tem adotado uma postura expansionista em relação a outros territórios. Já sugeriu anexar o Canadá, comprara Groenlândia e agora fala abertamente sobre os Estados Unidos “assumirem o controle” da Faixa de Gaza. São declarações que desafiam não apenas normas diplomáticas, mas a própria lógica da soberania como princípio organizador da política internacional.
Trump assombra o mundo com suas ambições imperiais - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Como não lembrar o discurso de Chaplin:
“Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à
ganância, ao ódio e à prepotência”
Quando assume o governo de Tomainia, Adenoid Hynkel acredita em uma nação puramente ariana e passa a discriminar os judeus. Essa situação é desconhecida por um barbeiro, que está hospitalizado devido à participação em uma guerra. Ao receber alta, mesmo sofrendo de amnésia sobre o que aconteceu, passa a ser perseguido e precisa viver no gueto. Lá, conhece a lavadora Hannah, por quem se apaixona. A vida do barbeiro passa a ser monitorada pela guarda de Hynkel, que tem planos de dominar o mundo. Seu próximo passo é invadir Osterlich, um país vizinho, e para tanto negocia um acordo com Benzino Napaloni, ditador da Bactéria.
O complexo dos muros - José Sarney*
Correio Braziliense
O Brasil é tão grande e tão sensato que não
tem planos de construir muros com ninguém, principalmente com a Argentina, com
quem desejamos, cada vez mais, fortalecer nossa amizade fraternal com o seu
povo, como já começamos a fazer com a criação do Mercosul
Estamos num tempo de guerras sem tiros, sem
lenço e sem documento. Refiro-me à guerra econômica, de taxas protecionistas,
alfandegárias, de um lado para o outro, entre os Estados Unidos e a China, o
Canadá, o México e a Colômbia. E nós, no Brasil, aqui, encolhidos, esperando
que sobrem para nós algumas taxas em nossos sapatos, aço, sucos e outras coisas
mais. Como o Brasil tem com os Estados Unidos uma troca de
exportação-importação equilibrada, não dá para entender nada daquela frase do
presidente Trump de que "eles precisam mais de nós do que nós,
deles."
Recordo com saudade as iniciativas políticas para a América Latina do presidente Roosevelt, a "Política de boa vizinhança" (Good Neighbor Policy), e a do presidente Kennedy, "Aliança para o Progresso" (Alliance for Progress), tão queridos de todos nós.
Desafios para o Congresso na área trabalhista - José Patore*
Correio Braziliense
Os parlamentares que acabam de voltar das
férias, terão muito trabalho para atender os pedidos do STF nesses três campos
do mundo do trabalho, entre eles a ampliação da licença paternidade
O Supremo Tribunal Federal (STF) deu prazos para o Congresso Nacional aprovar três leis que são exigidas pela Constituição de 1988 na área trabalhista. A primeira é a lei sobre a licença-paternidade, porque a regra atual de 5 dias foi aprovada pelos constituintes como provisória. A segunda é a lei sobre a proteção dos trabalhadores contra os problemas causados pela automação, também prevista na Constituição e, até hoje, não aprovada. A terceira é a lei de proteção dos trabalhadores contra os trabalhos penosos. As três são requeridas pela Carta Magna. São três imensos desafios:
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Supremo deveria suspender restrição à polícia em favelas
O Globo
Existem instrumentos eficazes para reduzir
letalidade sem que policiais sejam impedidos de cumprir seu papel
Não é de hoje que o Rio de Janeiro enfrenta
crise gravíssima na segurança pública. Diariamente a população fluminense é
obrigada a conviver com guerras entre quadrilhas, tiroteios, balas perdidas,
arrastões ou fechamento de vias. Não há solução para o problema que não seja o
combate sem trégua às organizações criminosas dominantes em comunidades da
Região Metropolitana. E não há como combatê-las sem que a polícia possa fazer
seu trabalho. Impedi-la de agir significa piorar a situação.
Por isso o Supremo Tribunal Federal (STF) deveria alterar seu entendimento na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, a ADPF das Favelas, cujo julgamento começou ontem. A decisão, tomada em 2020, restringiu operações policiais em comunidades fluminenses. Embora bem-intencionada por tentar reduzir a letalidade policial, criou outro problema: ao impor limites às operações, engessou o trabalho da polícia. O relator, ministro Edson Fachin, defendeu as restrições: “Dados concretos refutam a tese de que a brutalidade do Estado possa produzir resultados efetivos para a segurança pública”.
Entrevista | Haddad sobre o ministério: 'Aqui tem fogo amigo, fogo inimigo, fogo para todo o gosto'
Míriam Leitão / O Globo
O ministro Fernando
Haddad admite que tem dias difíceis no Ministério da Fazenda, mas
promete ficar até o final do governo no cargo e brinca sobre o “fogo amigo”. Em
entrevista longa, o ministro falou de dólar,
juros, reformas, inflação.
Veja abaixo a íntegra da entrevista.
O senhor hoje (quarta-feira) esteve com o
presidente da Câmara
dos Deputados, apresentando as prioridades do Ministério da Fazenda, da
parte econômica. Uma questão foi a Reforma da Renda. O senhor disse que os
parâmetros já foram conversados: isenção até R$ 5 mil de renda e tributação no
topo. A minha pergunta é se incluirá outras questões do Imposto de Renda? Por
exemplo, Imposto de Renda pessoa jurídica, imposto sobre dividendos, isso vai
estar no pacote da reforma da renda?
Fernando Haddad: Existe hoje um comando
constitucional do Congresso Nacional determinando que o governo encaminhe uma
Reforma da Renda. Infelizmente, nós ainda figuramos entre os dez países mais
desiguais do mundo.
A reforma (tributária) sobre o consumo, que entra em vigor em 2027, corrige boa parte dessas distorções. Uma delas é a cesta básica, que foi ampliada, e a segunda iniciativa é o mecanismo do cashback. A pessoa que está no Cadúnico e fez suas compras, aquilo que ela pagou de imposto sobre o consumo, tem o imposto devolvido automaticamente na sua conta.
Faroeste em Brasília - Malu Gaspar
O Globo
A levar em conta apenas a superfície dos
discursos dos presidentes do Senado
Federal, da Câmara
dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal (STF)
na abertura dos trabalhos em Brasília, está
tudo numa ótima. Diante dos microfones, os chefes dos três Poderes se mostraram
cheios de boa vontade uns com os outros, pregando harmonia, pacificação e
respeito à democracia. Por trás dos sorrisos e apertos de mão para fotos,
porém, o cenário está mais para um filme de faroeste em que os caubóis fazem
cara de paisagem enquanto engatilham as armas nos bolsos das calças.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), eleito com apoio do governo e da oposição sem precisar fazer nenhuma promessa, começou o mandato empunhando a Constituição, dando vivas à democracia e lembrando “Ainda estou aqui”. Logo ficou claro que seu principal alvo não será o golpismo dos bolsonaristas ou dos militares, e sim o Supremo Tribunal Federal e a ação pelo aumento da transparência nas emendas parlamentares.
Emendas estressam a relação entre Congresso e Supremo – Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Estava escrito nas estrelas
que as emendas parlamentares, sem transparência e rastreabilidade, se tornariam
caso de polícia. Mas são como pasta fora do tubo
A 1ª Turma do Supremo
Tribunal Federal (STF) marcou para 25 de fevereiro o julgamento da denúncia
apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra os deputados
Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Bosco Costa (PL-SE),
acusados de desviar recursos das emendas parlamentares. Os três pediram propina
aos prefeitos dos municípios beneficiados pelas emendas. Dezenas de
parlamentares estão sendo investigados em sigilo de Justiça por causa de
suspeitas de irregularidades das chamadas emendas secretas.
Esse julgamento deve aumentar a tensão já latente no Congresso entre os caciques da Câmara e do Senado e o STF, em razão da suspensão da execução de emendas parlamentares pelo ministro Flávio Dino, por falta de transparência. Os presidentes de Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), pretendem se reunir com o presidente do Supremo, Luís Roberto Barroso, para buscar uma solução para o impasse envolvendo as emendas parlamentares.
É preciso reduzir a jornada de trabalho - Ricardo Patah
O Globo
Lucro pode crescer nas organizações que dão
aos trabalhadores condições de equilibrar vida pessoal e profissional
Não dá mais. Temos que mudar. Os
trabalhadores de comércio e serviços são massacrados por uma carga de mais de
12 horas diárias, entre atividades nas empresas e ida e volta para casa. Quase
todos são enquadrados na escala 6x1 (trabalham seis dias e folgam um), esquema
implantado por Getúlio
Vargas em 1943, quando a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) foi
publicada.
Eles quase não têm descanso, não encontram tempo para o lazer, não conseguem estudar e mal encontram a família. O único dia de folga na semana, quase sempre, é usado para preparar o retorno e reiniciar esse “inferno”. Na prática, a escala 6x1 oficializa um esquema de trabalho análogo à escravidão. E isso em pleno século XXI, quando a tecnologia invade todos os setores da economia, especialmente com o desenvolvimento da inteligência artificial (IA).
América de Trump, Estado fora da lei - Joel Birman
O Globo
Estados Unidos podem expulsar os imigrantes
ilegais, sem documentação. Mas pela mediação de uma instância jurídica
Ao fazer o seu discurso de posse como novo
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump enunciou
o início de uma “era de ouro” para o país, com o intuito de tornar a “América
grande novamente”, se contrapondo assim à “decadência” promovida no país pela
administração Biden. Além de humilhar publicamente este, presente à cerimônia,
com desprezo e crueldade incomuns, Trump começou a delinear sua política contra
a imigração, marcada por virulência e fúria inéditas.
Logo em seguida iniciou-se a caça implacável a imigrantes em todo o país. Os agentes do governo passaram a bater de porta em porta em busca deles em suas casas, além de persegui-los em escolas, igrejas e possíveis locais de trabalho. Ao lado disso, imigrantes evitavam falar em suas línguas de origem para não ser denunciados, presos e enviados imediatamente ao país de nascimento. Portanto uma atmosfera pestilenta de caça às bruxas foi instituída em larga escala, para expulsá-los violentamente do território americano.
Disrupção de Trump ameaça lançar EUA e o mundo no caos - Humberto Saccomandi
Valor Econômico
Em apenas duas semanas, presidente dos EUA
possivelmente causou mais do que no primeiro ano inteiro de seu governo
anterior
Quase todo mundo esperava que o governo
de Donald Trump nos
EUA fosse disruptivo. Mas poucos esperam o nível atual de disrupção. Em apenas duas semanas, Trump possivelmente causou mais do que
no primeiro ano inteiro de seu governo anterior. Muitas medidas
serão questionadas na Justiça americana. Outras talvez sejam irrealizáveis. Mas
tudo isso acaba criando expectativas, que movem os mercados e influenciam as
decisões e ações de indivíduos, empresas e governos.
A disrupção, isto é, a ruptura de uma atividade, uma prática, um modo de pensar, não é negativa em si. Pode trazer novas abordagens para velhos problemas, permitir avançar em questões que estavam paralisadas devido a posições endurecidas, pode gerar inovação e tirar pessoas, grupos, empresas ou países de suas zonas de conforto.
Bancos centrais operam no escuro - Maria Clara R. M. do Prado
Valor Econômico
A depender do que for efetivamente
implementado por Trump, o nível da taxa de juros de curto prazo definido hoje
poderá estar totalmente fora do esquadro da realidade econômica
O vai e vem do governo dos Estados Unidos
quanto à imposição de tarifas sobre as importações, com ameaças, decisões e
recuos, continua a mexer com o mercado de câmbio. O dólar perdeu valor face às
demais moedas nos últimos dias com dúvidas sobre a dimensão das tarifas que
Donald Trump pretende impor aos produtos estrangeiros. Essa tem sido a causa
dos ganhos recentes do real. A expectativa de que um “tarifaço” norte-americano
não seja de fato implementado fez a taxa de câmbio cair de R$ 6,07 por dólar em
20 de janeiro (dia da posse) a R$ 5,79 no fechamento de ontem.
Em um mesmo dia, 3 de fevereiro, o dólar atingiu R$ 5,90 antes de recuar para R$ 5,81 no fechamento, com o anúncio de postergação por 30 dias da taxação dos produtos importados do México e do Canadá pelos EUA.
Gaza, Embraer, deportados e as regras do jogo - Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico
Brasil tem buscado se equilibrar frente à atuação Trump pelas “regras do jogo”. A dúvida é se será possível segurar a peteca com um presidente que nem jogo quer
Depois da ameaça sobre a Groenlândia, Canadá,
Golfo do México e Canal do Panamá, Donald Trump chegou ao píncaro com a ideia
de que pretende remover os palestinos da Faixa de Gaza para transformá-la numa
“Riviera do Oriente Médio”. Por estapafúrdia, a proposta mereceu amplo e
irrestrito rechaço da comunidade internacional, aí incluído o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, que classificou-a de “bravata sem sentido”.
No mesmo dia da declaração de Trump, a Embraer fechou a maior venda da história para a empresa americana líder da aviação executiva nos EUA, Flexjet. Serão 182 jatos num contrato estimado em US$ 7 bilhões. Foi a maior encomenda da Flexjet e a maior venda de jatos executivos da Embraer na história de ambas as empresas. Há anos a Embraer tenta fechar um contrato para a aviação regional chinesa, sem sucesso.
Governo sem foco nem luz - Maria Hermínia Tavares
Folha de S. Paulo
As dificuldades são de três tipos:
institucionais, políticas e de clareza de objetivos
O presidente Lula chega à
metade de seu mandato carente do entusiasmo que despertou no passado.
Recente pesquisa Genial/Quaest mostra
queda da aprovação do seu trabalho; pela primeira vez, desde 2023, mais
entrevistados o desaprovam. A perda de apoio é significativa por também ocorrer
entre seus eleitores fiéis.
Os bons indicadores econômicos —crescimento
do PIB e do emprego— não amainaram as críticas dos formadores de opinião que
duvidam de sua sobrevida a médio prazo. O aumento do preço dos alimentos parece
impedir que aqueles resultados se traduzam em sensação de melhoria para os
muitíssimos que vivem com dinheiro contado.
Nenhuma iniciativa do governo tem conseguido erguer o ânimo popular. Muito menos o das elites que desconfiam do mandatário e de seu partido.
Confiança na economia cai – Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Ânimo de consumidores e empresários baixa em
janeiro, apesar de bom resultado de 2024
A confiança na economia caiu de modo
disseminado em janeiro, a julgar pelos indicadores das pesquisas do Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre). Foi assim com a
confiança do consumidor e também com os ânimos das empresas do comércio, da
construção, da indústria e
dos serviços. Também
baixou o indicador antecedente de emprego.
A confiança baixou para níveis de 2023 e, no caso de serviços, para 2021. Não
quer dizer que estejam definidas as cartas da economia neste ano. Pode haver
flutuações temporárias de ânimos. Não há relação direta entre o tamanho da
baixa do humor e o do ritmo da atividade econômica. Ainda assim.
Preces atendidas - William Waack
O Estado de S. Paulo
A desordem internacional explicitada por
Trump é perigosa para o Brasil
É bem provável que o próprio Donald Trump não
compreenda o que significa a “lei da selva”, o “novo” sistema de relações
internacionais. Esse tipo de situação nada tem de novo, mas é a primeira vez
que a desordem mundial é incentivada por uma superpotência num ambiente de
arsenais nucleares em clara expansão.
O fato de que os fortões estão passando a se
comportar como bem entendem apanha o Brasil num momento particularmente
delicado. Também isso nada tem de novo: o País é uma potência regional média
com escassa capacidade de projeção de poder, e perdendo influência no seu
próprio entorno.
Sua principal vulnerabilidade é o fato de que as elites políticas brasileiras nunca se preocuparam em estabelecer um projeto de país que levasse a sério questões de segurança e defesa nacionais. Preocupações estratégicas de longo prazo se restringem ao âmbito acadêmico civil e militar. Chegaram ao segmento industrial privado em raras situações (a Embraer é o destaque).
Cesarismo - Eugênio Bucci
O Estado de S. Paulo
Donald Trump quer ser não apenas o rei da América, mas o seu César. Reduzirá a América a um nome de golfo. Isolado.
Em sua coluna dominical em O Globo, a jornalista Dorrit Harazim vem ajudando a gente a escrutinar o inconcebível. Os artigos que ela escreveu sobre a pulverização de Gaza compõem uma antologia definitiva. Logo mais, alguém se lembrará de publicá-la em livro. Agora, Dorrit tem decifrado a vulgar esfinge de Donald Trump. No domingo passado, num texto intitulado Com método, ela demonstrou que, por trás do caos performático do presidente dos Estados Unidos, com mentiras intercontinentais e factoides histriônicos, há uma lógica ferina e fria. Nas palavras da colunista do Globo, o “objetivo maior e final de Trump” é “assumir controle pleno, sistemático e duradouro da máquina federal”. E mais: “o conjunto de ordens executivas e medidas adotadas nesse sentido nada tem de caótico – são eficazes, precisas e reveladoras de um planejamento de anos para o desmonte da burocracia qualificada”.
Entrevista | Marcello Faulhaber: 'Economia e direita esfacelada tornam Lula favorito para 2026'
Por Thiago Prado / O Globo
A temporada de projeções sobre a eleição de
2026 continua e chegamos à segunda entrevista da nossa série com estrategistas
políticos e donos de institutos de pesquisas para avaliar as chances de Lula conseguir
seu quarto mandato.
Desta vez, falamos com Marcello Faulhaber, o coordenador das
últimas campanhas de Eduardo Paes no Rio, que vai contra a corrente das falas
dos últimos sete dias. Economista, Faulhaber também esteve no núcleo de
estratégia da campanha de Lula contra Jair
Bolsonaro em 2022, ao lado do atual Secretário de Comunicação do
Planalto, Sidônio Palmeira.
Na semana passada, Renato Pereira, o novo marqueteiro do governador de Minas
Gerais, Romeu Zema (Novo), cravou para o Jogo Político que a próxima corrida ao
Planalto será de mudança. Foi o mesmo espírito da fala do presidente do
PSD, Gilberto
Kassab, que disse que Lula perderia a disputa se ela ocorresse hoje.
Faulhaber está mais alinhado a outra linha de
pensamento, que se fortaleceu nesta semana, após a divulgação da pesquisa Quaest colocando o petista na frente dos
adversários de direita em todos os cenários analisados.
Destaco dois artigos na imprensa que também
enxergam Lula como favorito. Nesta terça-feira, no GLOBO, o editor-executivo Paulo Celso
Pereira escreveu que será difícil derrotar o PT em 2026: "Lula tem a
máquina pública a seu favor, o maior partido do país, o segundo maior fundo
eleitoral e controla o tempo". Na "Veja", Thomas Traumann
foi pelo mesmo caminho em texto da última segunda-feira: "Lula terá a
máquina federal nas mãos. Apenas o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu
perder uma eleição estando no cargo. Do lado da oposição, há muita vaidade e
pouca organização".
Abaixo, os principais trechos da conversa com Faulhauber.










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